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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

ROBERTO PIVA | O banquete do poeta


FM Durante os anos de 1959 a 1961, você participou de um curso sobre a Divina Comédia, curso este ministrado por Edoardo Bizzarri, no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro. Dante teria sido a porta de entrada para a sua poesia?

RP Eu não tinha nenhum interesse em ser poeta. Eu queria ser gangster. Então eu andava pelas ruas de São Paulo, armado de revólver, com capa, imitando os filmes de gangster americanos, Humphrey Bogart etc. O problema é que eu não consegui ser gangster. Então acabei escrevendo poesia, que é uma forma de incentivar ao gangsterismo. Este curso sobre a Divina Comédia foi dado pelo então adido cultural da Itália no Brasil, e ali comentamos e discutimos os três livros de Dante (Inferno, Purgatório e Paraíso), um ano para cada livro. Eu acompanhei os três anos. O que aconteceu é que Dante, como todo verdadeiro poeta, era um nômade. Foi expulso da cidadezinha dele, entrou em choque com todos os poderes constituídos de sua cidade, com o tipo de governo que havia lá, e passou a vida como nômade, cada hora na corte de um nobre daqueles que lhe dava guarida. Eu também me sentia muito nômade, e havia uma grande identificação minha com todos os personagens de Dante. Eu talvez não seja nada mais do que um personagem do Inferno de Dante, que saltou fora da obra para deixar a realidade em completa desordem.

FM Em entrevista que fiz ao Claudio Willer, ele me falou de certas leituras de Heidegger que vocês faziam na casa do Vicente Ferreira da Silva.

RP O Vicente foi o único filósofo original que teve o Brasil. Era um cara que levava, não literariamente, não vegetarianamente, a proposição do Oswald de Andrade, de antropofagia. Para ele, antropofagia era antropofagia mesmo. Não era essa coisa literária, pasteurizada, que esses professores de literatura estão tentando fazer. Para ele, era devorar o outro, era comer o outro, comer, matar e comer. Ele achava que isto era o fundamental, porque ele era um filósofo dionisíaco, um filósofo do delírio. Como as Bacantes, tem que chegar lá e arrancar, matar os Penteus e devorar. Tem que ser devorado, que ser estuprado. Vicente lia ao pé da letra a antropofagia, e era um amigo íntimo do Oswald de Andrade. Daí que foram leituras e discussões de Heidegger e outros filósofos, outros autores, envolvendo muita gente, porque a casa do Vicente era um espaço cosmopolita, onde caras do mundo inteiro frequentavam, desde o Guimarães Rosa, passando por físicos italianos, poetas franceses, críticos americanos etc. Daí que eu acho que 99,9% dos poetas brasileiros são altamente provincianos. Provavelmente o único poeta brasileiro não provinciano foi o Murilo Mendes, dotado de uma visão internacional, geral, cosmopolita. Por isto que a minha grande influência poética no Brasil é o Murilo Mendes, e isto em todos os sentidos, porque eu vinha de uma escola que era a mesma do Vicente Ferreira da Silva, e a minha própria formação, sempre em contato com pessoas de várias nacionalidades, eu saí fora da tribo, ao mesmo tempo conhecendo profundamente essa tribo. Então esse provincianismo de escolinha, de igrejinhas, de tertúlias caretas de literatura, essa coisa de grupo, do tipo o cara vai no jornal e só elogia os caras do grupo dele, isto tudo é uma coisa medíocre, uma coisa provinciana que existe entre 99,9% dos poetas brasileiros. E na casa do Vicente não tinha isto. Lá se discutia Heidegger, se discutia Fernando Pessoa. Conheci lá, por exemplo, o Eudoro de Sousa, famoso intelectual português, exegeta de Fernando Pessoa. Eram momentos de grande participação, nossas leituras de poesia, nossas discussões de Heidegger. Na USP, veja bem, os comunistas da USP, os positivistas, nos olhavam como a molecada. Já o Vicente e a esposa dele, a Dora Ferreira da Silva, nos recebiam da mesma forma como a um Guimarães Rosa. Isto é que era bacana. Enquanto o pessoal da USP estava sempre nos marginalizando. Atualmente são os mesmos caras da USP, que naquela época combateram o meu livro Paranóia (1933), que atualmente, quando me vêem, ficam de olho arregalado e embasbacados, porque acham uma coisa maravilhosa, brilhante, e que descobriram isto vinte anos depois. No entanto, o Vicente, já naquela época – e ele morreu logo em seguida –, mostrava nossos textos para todas essas pessoas, e discutia com a gente com a mesma seriedade com que discutia com um Ernesto Grassi, um Eudoro de Sousa, um Guimarães Rosa. Enfim, todos bebíamos a mesma porção desse caldo filosófico que era a casa do Vicente Ferreira da Silva.

FM Há em sua poesia inúmeras referências musicais – “Miles Davis a 150 quilômetros por hora / caçando minhas visões como um demônio” ou “Paul Desmond com seu sax alto floreando em stacatto meu apartamento” – quase sempre jazzísticas.

RP O ritmo do jazz é inseparável da minha poesia. Aliás, agora que está na moda badalar o Chet Baker, você observa que em 1963 eu já falo dele em um verso meu. Agora ele está na moda, descobriram o cara quando ele está uma ruína, quando está em franca decadência, está democrático, convidando uns babacas do Rio de Janeiro, um pessoal que não sabe o que diz nem o que toca, para tocar com ele. Ele democratizou essa sua energia, e daí perdeu todo o pique. Atualmente ele é um cara totalmente sem aquele pique, aquela genialidade, sem aquela energia de transformação e de invenção que ele tinha, a ponto de influenciar a nossa Bossa Nova. E todo esse balanço da bossa é o balanço da minha poesia. Uma poesia sem música, sem jogo de cintura, é uma poesia rígida, dos comunistas, dos marxistas, uma poesia absolutamente trancada dentro de um túmulo que é o túmulo do leninismo, que já está fedendo. É claro que o rock também me influenciou, mas não teve a mesma importância que o jazz, o cool jazz. Mas há evidentemente alguma influência do rock, uma vez que pessoas como o Jim Morrison, Bob Dylan, Frank Zappa, são excelentes poetas. Então o rock me influenciou também, e até mesmo antes do jazz. Eu fui, por exemplo, um dos caras que em 1957 foi receber o Bill Haley, com um grupo de jovens, lá na Praça do Patriarca, onde ele se hospedou. Fomos fazer uma manifestação de carinho, de afeto. Posteriormente o jazz me influenciou, e logo em seguida a Bossa Nova. Eu fui apaixonado pela Bossa Nova. Então essas três correntes – o rock, a Bossa Nova e principalmente o jazz – são uma constante da influência musical na minha obra.

FM Há a seguinte passagem no livro 20 poemas com brócoli (1981): “não serei vossa sobremesa nesta curta temporada no inferno”. A rebeldia seria o último caminho para a arte no sentido de liquidar com o dopping da sociedade de consumo ou mesmo essa negação já teria sido absorvida pelo status quo, convertendo-se na “própria instituição burguesa do poético” (Luís Costa Lima)?

RP Minha obra tem que ser vista como um plano de fuga desta civilização. Tudo aquilo que eu escrevo, tudo aquilo que eu falo, que eu vivo, todas as trepadas que dou, é porque eu não tenho grana. Por isto eu queria ser gangster, para ter muito dinheiro e evadir desta civilização, morar em uma ilha, saltar fora, morar entre maometanos, eu não sei mais. Trata-se de um plano de fuga desta civilização. Evidente que toda a poesia, que grande parte da poesia brasileira, atualmente está pasteurizada e conchavada com a mídia. Tem jornais brasileiros – e seus suplementos – que são verdadeiros lobbies editoriais. As redações desses jornais tentam pegar poetas em que eles possam oferecer ao público uma visão uniforme da poesia brasileira. Há portanto uma castração em processo, uma castração em massa. Então está na hora dos verdadeiros poetas caírem fora deste circuito, de novo, e ficar naquela eterna de emergir e submergir, porque a pasteurização está aí, cada dia os versinhos estão mais bem comportados, as bordadeiras de poesia estão de volta, tudo isto. Então, eu acredito que a poesia-porrada, a poesia-cancerosa, a poesia-lisérgica, esta jamais será conchavada pelo sistema.

FM Você acredita que a vida se modifique, que o homem se aperfeiçoe?

RP A vida é um monte de ruínas. Não existe evolução, coisa nenhuma. E cada dia mais as pessoas estão voltando praticamente para uma idade da pedra da qual elas nunca saíram. Vale a pena escrever porque três ou quatro pessoas, meia dúzia aqui, outros tantos ali, amigos, um pequeno grupo de pessoas, no meu caso os garotos de periferia, os garotos subproletários, enfim, eles são pessoas que se identificam muito com o tipo de coisa que eu escrevo, porque eles não abolem, eles não tiram da cabeça um princípio básico para entender a minha poesia, a palavra criminal. Uma poesia cuja transgressão aponta, em última instância, para o crime, e para a anarquia generalizada – não o anarquismo, mas a Anarquia. A minha poesia nada mais é do que a tentativa de instaurar essa desordem no cotidiano das pessoas.

FM Recordo aqui Pasolini: “talvez a verdadeira tragédia de todo poeta seja a de só atingir o mundo metaforicamente, segundo as regras de uma magia definitivamente limitada na sua apropriação do mundo”.

RP Não tenha dúvida, o poeta é um solitário. Poeta que não é solitário são os poetas oficiais, professores universitários bem situados, casados, direitinho. Tem toda uma mídia atrás disso, visando transformar a poesia em mais uma armadilha que faz movimentar o rebanho. Então essa espécie de cumplicidade dessas pessoas com o sistema visa a venda de obras, ou seja, uma poesia feita em função do ego. A minha poesia não é feita em função do ego, e sim em função do delírio. Eu só acredito no delírio, do qual a poesia é uma das manifestações. Eu estou muito próximo da arte bruta, da arte com loucos, com crianças, dos meus amigos grafiteiros de muros… A poesia é para conduzir a isto. A poesia, diz Lautréamont, deve ser feita por todos. Não para todos, mas por todos, cada um à sua maneira. Agora, querer impingir para o povo brasileiro uma escola, um único capítulo da história da literatura como sendo o capítulo, isto é um absurdo. Existem milhares. A verdade é a variedade. Fora disto é a uniformidade, a coisa totalitária que eles querem impor, tanto os de direita quanto os de esquerda e os de centro, do alto, de baixo, todos querem uma visão uniforme da vida, como se isto fosse possível. Então todos estão aí querendo botar essa máscara, impingir esse túmulo para a sociedade brasileira, para a juventude. Agora, você sabe, tem aquele princípio zen, aquele princípio taoísta: quanto mais você pratica o não-agir mas as coisas correm a seu favor.

FM Encerro lembrando uma declaração recente do Pepe Escobar, publicada na Folha de São Paulo (27/07/85): “No Brasil não existe nem mesmo uma poesia trágica capaz de compensar nosso descarrilhamento histórico. Não temos nem mesmo uma Odisséia que retrate dignamente a agonia de nosso povo. Falta até mesmo o puro e simples tesão na cultura brasileira. Tudo gira em torno de compromissos de clubes, amanteigados por sublirismo. E tudo cai na impenitente banalização.”

RP Pois é, é tudo isto de que acabamos de falar. E tudo gira em torno de uma única palavra: provincianismo. E o cara sendo provinciano ele está perdido. O cara entrar nesse jogo da mídia, ele está perdido, porque isso passa, assim como lembrando uma frase de Brecht: “das cidades só vai sobrar o vento que passa sobre elas”.

[1985]

[Entrevista incluída no livro O Começo da Busca - O surrealismo na poesia da América Latina, de Floriano Martins (São Paulo: Escrituras Editora, 2001).]

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

ROBERTO PIVA | No miolo do furacão



FM Piva, anarquia ou anarquismo?

RP Anarquia. Desordem total, sabotagem em regra, insubmissão absoluta. Como diz Léo Ferré, a anarquia é a crítica desesperada, o desespero da solidão. Anarquia é a negação de toda e qualquer autoridade, venha ela de onde vier.

FM Nós vivemos aqui com um nós na garganta. O que fazer?

RP Acredito com Nietzsche, na reaparição gradual do espírito dionisíaco no mundo contemporâneo. Apesar da caretice generalizada desta década de 80, eu acredito na grande explosão de Dionisus, deus do vinho, deus das bacanais, deus da ecologia e orixá da vegetação. Aqui em São Paulo a polícia fechou uma sauna gay de garotos da periferia e chamou os pais dos garotos na delegacia para humilhá-los e então liberá-los. Foi só a sauna reabrir, e lá estavam todos os garotos outra vez desafiando a autoridade policial, paterna e moral.
William Blake dizia que o desejo que se deixa reprimir não era um desejo suficientemente forte. Debaixo dessa casca dormem com um olho aberto todos os deuses pagãos. O golpe de estado erótico virá e então será a guerra profetizada por Freud no seu livro Totem & Tabu.

FM O poeta surrealista negro Aimé Césaire, em um poema, diz: “Salve pássaros que abrem com bicadas o verdadeiro ventre do pântano”. Você acha que ele se refere à nossa época e aos poetas?

RP Claro. O poeta é o que implode o verdadeiro ventre do pântano. Pode ser também o outsider, o louco, o adolescente revoltado, os bruxos, os amantes fora-da-lei, os anárquicos, os drogados, os desordeiros, os visionários etc. Me lembro agora de um verso também de Césaire, onde ele diz: “bárbaro eu a serpente escarradora”. O título deste poema é Bárbaro. Ele termina numa orgia de sangue onde afirma querer “atirar aos cães a carne aveludada de seu tórax”. Toda a poesia verdadeira rima com revolta, amor e liberdade.

FM E o bom-mocismo na atual poesia brasileira?

RP Artaud afirmava que a poesia é exercício muscular. Jack Kerouac falava que os músculos contêm a essência. A poesia é anterior às palavras. Grande parte da poesia atual brasileira (e não só brasileira) não quer correr risco algum, tem medo do perigo. Então assistimos a volta à poesia de gabinete, onde até a cor de sua escrivaninha os poetas contam nas entrevistas. É uma poesia domada pelo racionalismo cartesiano. Uma poesia de trinta anos atrás que se apoiava na indústria, dançou com o modelo industrial nesta época pós-industrial de biotecnologia e energia solar.

FM Caminhamos para uma sociedade policial?

RP O monopólio da informação e dos midia nacionais favorece a subordinação administrativa no seu papel de controle social, de burocratização do Mundo, segundo a palavra de Max Weber. A imagem do Estado policial popularizado pelo esquerdismo é retomada com mais variantes pelos ecologistas que sublinham não o seu caráter violento, mas a sua vontade de normalização. Trata-se menos de uma repressão franca e policial do que de uma opressão insidiosa caracterizada pelo domínio do conjunto dos comportamentos. As grandes vítimas desse tipo de normalização, no nosso tempo, foram: Fassbinder, Mishima e Pasolini. Pasolini dizia que o mundo caminhava no sentido de adotar os valores e comportamentos da classe média. Ele foi assassinado por um garoto michê marginal integrado, isto é, um garoto sub-proletário porém com todos os valores da classe média na cabeça. Daqueles que querem uma moto para colocar na garupa uma garota ornamental. Jim Morrison falava nos anos 60 que quem tem o poder da mídia tem o poder da mente. Zé Celso cansou de dizer que a mídia impõe a mensagem. Daí o consumo imposto pelos mídia de alimentos-sucata, de comportamentos-sucata de 50 anos atrás etc.

FM Qual a sua atividade no momento?

RP Erotizar e contemplar a árvore de qualidade colérica de que fala Jacob Böehme.

FM Quando você caminha pelas ruas de São Paulo o que mais chama sua atenção?

RP Os anões tagarelas, a enfermidade Silêncio, o Controle Central, os macacos não regenerados e os sobreviventes.

FM Qual a sua profecia para este final de década?

RP É o princípio do fim. Talvez garotos suburbanos com corpos pintados e máscaras de folhas espalhem um saudável terror com suas garras de leopardo envenenadas. Depois entrarão em cena os acadêmicos da morte, imitações supersônicas e agentes biológicos de inanição. Tudo sob um luminoso em néon escrito DIREITO. Em seguida o Apodrecimento Saturniano Vermelho fará sua aparição num cortejo de macacos de TV e bactérias.

[1986]

NOTA

O poeta Roberto Piva (Brasil, 1937) tem aquela que talvez seja a obra poética mais incomum no âmbito de uma tradição lírica brasileira. Desde 1961, quando surge com a plaquete Ode a Fernando Pessoa, por um total de 20 anos seus livros circulam quase que clandestinamente, considerando sua precária distribuição, sobretudo fora da cidade de São Paulo. Em 1985 finalmente se publica uma antologia de sua poesia, porém logo em seguida ele fica por 12 anos sem publicar livros, ressurgindo apenas em 1997 com Ciclones. Somente agora no início deste século a Editora Globo, em um brilhante trabalho de Alcir Pécora, vem publicando as obras reunidas de Roberto Piva, em um planejamento editorial que prevê três volumes, dos quais acaba de sair o segundo. A entrevista que aqui recuperamos foi feita em 1986, tendo sua publicação original no SLMG # 1038 (Minas Gerais, 30/08/1986). Houve algo duplamente atípico na ocasião: em primeiro lugar, Piva perdeu as minhas perguntas e como eu também havia ficado sem uma cópia das mesmas, ele tratou de reescrevê-las de acordo com o que lhe restava na memória, o que torna o texto a seguir praticamente uma auto-entrevista. Em segundo lugar, embora a edição da mesma tenha ficado graficamente bem resolvida, incluindo uma mostra de poemas, a direção do Suplemento resolveu censurar algumas passagens, o que acabou resultando no meu afastamento após cinco anos de intensa colaboração com aquele órgão. O contratempo acabou nos deixando de tal forma desgostosos que nem mesmo guardamos exemplar da referida edição. Somente este mês, enquanto buscava outros papéis, é que localizei uma fotocópia da entrevista que, mesmo considerando os cortes violentos, é documento válido e ajuda a consolidar a força deste brilhante poeta que é Roberto Piva. Abraxas

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ROBERTO PIVA | El banquete del poeta




FM Durante los años 1959 a 1961, asististe a un curso sobre la Divina Comedia, dictado por Edoardo Bizzarri, en el Instituto Cultural Ítalo-Brasilero. ¿Dante habría sido la puerta de entrada a tu poesía?

RP Yo no tenía ningún interés en ser poeta. Yo quería ser gángster. Por entonces andaba por las calles de San Pablo, armado con revólver, con sobretodo, imitando las películas de gángster norteamericanos, Humphrey Bogart etc. El problema es que no logré ser gángster. Entonces terminé escribiendo poesía, que es una forma de incentivar el gangsterismo. Este curso sobre la Divina Comedia fue dado por el entonces agregado cultural de Italia en el Brasil, y allí comentamos y discutimos los tres libros de la Comedia (Infierno, Purgatorio y Paraíso), un año para cada libro. Yo asistí los tres años. Lo que ocurrió es que Dante, como todo verdadero poeta, era un nómada. Fue expulsado de su ciudad, chocó con todos los poderes constituidos de la ciudad, con el tipo de gobierno que había allá, y pasó la vida como nómada, a cada rato en la corte de un noble de esos que le daba guarida. Yo también me sentía muy nómada, y muy identificado con todos los personajes de Dante. Yo tal vez no sea nada más que un personaje del Infierno de Dante, que saltó fuera de la obra para dejar la realidad en completo desorden.

FM En una entrevista que le hice a Claudio Willer, él me habló de ciertas lecturas de Heidegger que ustedes hacían en la casa de Vicente Ferreira da Silva.

RP Vicente fue el único filósofo original que tuvo el Brasil. Era un tío que cumplía, no literariamente, no vegetarianamente, la proposición de Oswald de Andrade, de antropofagia. Para él, antropofagia era realmente antropofagia. No era esa cosa literaria, pasteurizada, que esos profesores de literatura están intentando hacer. Para él, era devorar al otro, comer al otro, comer, matar y comer. Él creía que esto era lo fundamental, porque era un filósofo dionisíaco, un filósofo del delirio. Como las Bacantes, tiene que llegar hasta allá y despedazar, matar a los Penteos y devorar. Tiene que ser devorado, que ser estuprado. Vicente leía al pie de la letra la antropofagia, y era íntimo amigo de Oswald de Andrade. De ahí que fueran lecturas y discusiones de Heidegger y otros filósofos, y otros autores entre mucha gente, porque la casa de Vicente era un espacio cosmopolita, que frecuentaban tíos del mundo entero, desde Guimarães Rosa, pasando por físicos italianos, poetas franceses, críticos norteamericanos, etc. De ahí que creo que 99,9% de los poetas brasileños son altamente provincianos. Probablemente el único poeta brasileño no provinciano fue Murilo Mendes, dotado de una visión internacional, general, cosmopolita. Por eso es que mi gran influencia en el Brasil es Murilo Mendes, y esto en todos los sentidos, porque yo venía de una escuela que era la misma que la de Vicente Ferreira da Silva, y mi propia formación, siempre en contacto con personas de varias nacionalidades. Yo salí fuera de la tribu, al mismo tiempo conociendo profundamente esa tribu. Entones ese provincianismo de escuelita, de capillitas, de tertulias caretas de literatura, esa cosa de grupo, de tipo individuo que va al diario y sólo elogia a los del grupo del él, todo eso es una cosa mediocre, una cosa provinciana que existe entre 99,9% de los poetas brasileños. Y en la casa de Vicente no había eso. Allí se discutía Heidegger, se discutía Fernando Pessoa. Allí conocí, por ejemplo, a Eudoro de Sousa, famoso intelectual portugués, exégeta de Fernando Pessoa. Eran momentos de gran participación, nuestras lecturas de poesía, nuestras discusiones sobre Heidegger. En la Universidad de San Pablo, fíjate bien, los comunistas de la Universidad de San Pablo, los positivistas, nos miraban como a chiquillada. En esos tiempos Vicente y la esposa de él, Dora Ferreira da Silva, nos recibían de la misma forma como a un Guimarães Rosa. Esto era formidable. Mientras el personal de la USP nos estaba siempre marginalizando. Actualmente son los mismos tíos de la USP, que en aquella época combatieron mi libro Paranóia (1963), los que, cuando me ven, abren mucho los ojos y quedan boquiabiertos, porque encuentran una cosa maravillosa, brillante, y que descubrieron veinte años después. Entre tanto Vicente, ya en aquella época -él murió en seguida-, mostraba nuestros textos a todas esas personas, y discutía con nosotros con la misma seriedad con que discutía con un Ernesto Grassi, un Eudoro de Sousa, un Guimarães Rosa. En fin, todos bebíamos la misma porción de ese caldo filosófico que era la casa de Vicente Ferreira da Silva.

FM Hay en tu poesía innumerables referencias musicales -“Miles Davis a 150 quilómetros por hora / cazando mis visiones como un demonio”; o “Paul Desmond con su saxo alto floreando en stacatto mi departamento”-, casi siempre jazzísticas.

RP El ritmo del jazz es inseparable de mi poesía. Además, ahora que está de moda Chet Baker, habrás visto que en 1963 yo ya hablo de él en un verso mío. Ahora está de moda, lo descubrieron cuando está en la ruina, cuando está en franca decadencia, convidando a unos babiecas de Río de Janeiro, una gente que no sabe lo que dice ni lo que toca, para tocar con él. Democratizó su energía, y ahí perdió todo la fuerza. Actualmente es un tío totalmente sin garra, sin aquella genialidad, si aquella energía de transformación y de invención que tenía, hasta el punto de influir en nuestra Bossa Nova. Todo ese balanceo de la bossa es el balanceo de mi poesía. Una poesía sin música, sin juego de cintura, es una poesía rígida, de los comunistas, de los marxistas, una poesía absolutamente trancada dentro de una tumba, que es la tumba del leninismo, que ya está hediendo. Claro que el rock también me influenció, pero no tuvo la misma importancia que el jazz, el cool jazz. Pero hay evidentemente una influencia del rock, ya que personas como Jim Morrison, Bob Dylan, Frank Zappa, son excelentes poetas. Entonces el rock me influenció también, e incluso antes que jazz. Yo fui, por ejemplo, uno de los que en 1957 fui a recibir a Bill Haley, con un grupo de jóvenes, allá en la Praça do Patriarca, donde él se hospedó. Fuimos a hacer una manifestación de cariño, de afecto. Posteriormente el jazz me influenció, y luego, en seguida, la Bossa Nova. Yo fui un apasionado de la Bossa Nova. Entonces esas tres corrientes -el rock, la Bossa Nova y principalmente el jazz- son una constante de la influencia musical en mi obra.

FM Hay el siguiente pasaje en el libro 20 poemas com brócoli (1981): “no seré vuestro postre en esta corta temporada en el infierno”. ¿La rebeldía sería el último camino para el arte en el sentido de terminar con el dopping de la sociedad de consumo? ¿O incluso esa negación ya habría absorbida por el statu quo, convirtiéndose, para usar palabras de Luís Costa Lima, en la “propia institución burguesa de lo poético”?

RP Mi obra tiene que ser vista como un plan de fuga de esta civilización. Todo lo que yo escribo, todo lo que hablo, lo que vivo, todas las montadas que doy, es porque no tengo plata. Por eso yo quería ser gángster, para tener mucho dinero y escapar de esta civilización, vivir en una isla, saltar afuera, vivir entre mahometanos, yo qué sé. Se trata de un plan de fuga de esta civilización. Es evidente que toda la poesía, que gran parte de la poesía brasileña, actualmente está pasteurizada y combinada con los medios. Hay diarios brasileños -y sus suplementos- que son verdaderos lobbies editoriales. Las redacciones de esos diarios intentan conseguir poetas que puedan ofrecer al público una visión uniforme de la poesía brasileña. Hay por lo tanto una castración, en proceso, una castración en masa. Entonces es hora de que los verdaderos poetas salgan de ese circuito, de nuevo, y paren con eso eterno de emerger y sumergirse, porque la pasteurización está allí, cada día los versitos están más bien educados, las bordadoras de poesía están de vuelta, todo eso. Entonces, yo creo que una poesía-borracha, una poesía-cancerosa, una poesía-lisérgica, ésta jamás será alquilada por el sistema.

FM ¿Crees que la vida se modifique, que el hombre se perfeccione?

RP La vida es un montón de ruinas. No existe evolución, ninguna cosa. Y cada día más las personas están volviendo prácticamente a una edad de piedra de la cual nunca salieron. Vale la pena escribir porque tres o cuatro personas, media docena aquí, otros tantos allá, amigos, un pequeño grupo de personas, en mi caso los muchachos de los suburbios, los muchachos subproletarios, en fin, ellos son personas que se identifican mucho con el tipo de cosas que yo escribo, porque ellos no tienen que eliminar, ellos no tienen que sacarse de la cabeza un principio básico para entender mi poesía, la palabra criminal. Una poesía cuya trasgresión apunta, en última instancia, al crimen, y a la anarquía generalizada -no al anarquismo-, sino a la Anarquía. Mi poesía no es más que la tentativa de instaurar ese desorden en lo cotidiano de las personas.

FM Recuerdo aquí a Pasolini: “Tal vez la verdadera tragedia de todo poeta sea la de alcanzar el mundo sólo metafóricamente, según las reglas de una magia definitivamente limitada en su apropiación del mundo”.

RP No tengas dudas, el poeta es un solitario. Poeta que no es solitario, son los poetas oficiales, profesores universitarios bien situados, casados, derechitos. Hay toda una mass media atrás de eso, apuntando a transformar la poesía en una armadilla más que hace mover el rebaño. Entonces esa especie de complicidad de esas personas con el sistema mira a la venta de obras, o sea, una poesía hecha en función del ego. Mi poesía no está hecha en función del ego, sino en función del delirio. Yo sólo creo en el delirio, una de cuyas manifestaciones es la poesía. Y estoy muy próximo del arte bruto, del arte con locos, con niños, de mis amigos grafiteros de paredes… La poesía es para conducir a esto. La poesía, dice Lautréamont, debe ser hecha por todos. No para todos, sino por todos, cada uno a su manera. Ahora, querer imponer al pueblo brasileño una escuela, un único capítulo de la historia de la literatura como el capítulo, esto es un absurdo. Existen millares. La verdad es la variedad. Fuera de esto es la uniformidad, la cosa totalitaria que ellos quieren imponer, tanto los de derecha como los de izquierda y los de centro, los de arriba, los de abajo, todos quieren una visión uniforme de la vida, como si eso fuera posible. Entonces todos están ahí, queriendo poner esa máscara, imponer esa tumba a la sociedad brasileña, a la juventud. Ahora, lo sabes bien, está aquel principio zen, aquel principio taoísta: cuanto más practicas el no actuar, más las cosas corren a tu favor.

FM Cierro recordando una declaración reciente de Pepe Escobar, publicada en Folha de S. Paulo (27/07/85): “En el Brasil no existe ni siquiera una poesía trágica capaz de compensar nuestro descarrilamiento histórico. No tenemos ni una Odisea que retrate dignamente la agonía de nuestro pueblo. Falta hasta la pura y simple calentura en la cultura brasileña. Todo gira en torno a compromisos de clubes, mantecados de sublirismo. Y todo cae en la impenitente banalización.”

RP Pues sí, es todo esto de que acabamos de hablar. Y todo gira en torno de una única palabra: provincianismo. Y el individuo siendo provinciano está perdido. Si entra en ese juego de los media, está perdido. Porque eso pasa. Como dice una frase de frase de Brecht: “de las ciudades sólo va a sobrar el viento que pasa sobre ellas”.

[1985]

ROBERTO PIVA (BRASIL, 1937-2010)

Paranóia. Massao Ohno Editor. São Paulo. 1963. / Piazzas. Massao Ohno Editor. São Paulo. 1964. / Abra os olhos & diga ah. Massao Ohno Editor. São Paulo. 1975. / Coxas. Edição Feira de Poesia. São Paulo. 1979. / 20 poemas com brócoli. Massao Ohno Editor. São Paulo. 1981. / Quizumba. Global Editora. São Paulo. 1983. / Ciclones. Nanquim Editorial. São Paulo. 1998.


[Escritura conquistada. Conversaciones con poetas de Latinoamérica. 2 tomos. Caracas: Fundación Editorial El Perro y La Rana. 2010.]