sábado, 9 de agosto de 2014

ELIANE ROBERT DE MORAES | O Marquês de Sade e a loucura da imortalidade



FM Diversas são as maneiras com que muita gente se aproxima de Sade. Lembro aqui uma declaração de Luis Buñuel, ao dizer que se sentiu essencialmente atraído pelo pensamento ateu. Em teu caso, o que primeiro te chama a atenção nesta ainda hoje controversa figura?

ERM O que mais me atrai em Sade é essa “ruptura com o mundo” que sua literatura opera, na tentativa de despertar e colocar em jogo virtualidades humanas ainda insuspeitas, valendo-se da imaginação para aceder aos domínios do impossível. Por isso mesmo, minha leitura da literatura sadiana sempre privilegia a força imaginativa, fazendo eco a uma conhecida passagem das 120 journées que afirma: “toda felicidade do homem está na imaginação”. Assim, busco compreender o pensamento de Sade por dentro, a partir de seus próprios princípios, acreditando que ele funda um domínio único de expressão, alheio às exigências de coerência, sejam elas formais ou conceituais, sejam elas literárias ou filosóficas. Meu lugar de leitura está comprometido, antes de mais nada, com a fantasia do escritor.

FM Em um breve comentário acerca do livro Sade contra o Ser Supremo, de Philippe Sollers, observas que os textos que compõem esta obra, “escritos em tom de manifesto, eles pecam pela superficialidade com que abordam as diferenças entre as ideias do marquês e outros pensamentos, o que, por certo, exigiria um rigor do qual o autor julga poder prescindir”. Eu pediria aqui um detalhamento maior sobre a referida superficialidade, bem como a tua ideia do significado de Deus para o marquês.

ERM Nesse livro, Sollers tenta dar continuidade às ideias sadianas, substituindo a refutação de Deus pela recusa do culto ao Ser Supremo, tão caro aos revolucionários de 1789. Para tanto, ele coloca o sistema sadiano em oposição aos grandes pensamentos dos séculos XIX e XX, como os de Marx, Freud e Sartre que, segundo sua visão, ainda seriam tributários da “religião” laicizada e estatal instaurada depois da Revolução Francesa. Ora, além de ser um recurso anacrônico, Sollers propõe como desdobramentos lógicos da ideia de Ser Supremo os complexos conceitos de “Espírito”, “Sujeito Transcendental”, “Coisa em Si” ou “Inconsciente”, sem atentar às particularidades que os distinguem entre si. Trata-se de uma atitude intelectual apressada, equivocada e leviana.
Como proponho no texto “O gozo do ateu”, acredito que o ponto de partida do ateísmo de Sade é o desamparo humano. Ninguém nasce livre; o homem, lançado ao mundo como qualquer outro animal, está “acorrentado à natureza”, sujeitando-se como um “escravo” às suas leis; “hoje homem, amanhã verme, depois de amanhã mosca” — tal é a condenação que paira sobre a “infeliz humanidade”. Ciente de que as religiões nascem desse triste destino, o devasso sadiano prefere admiti-lo sem escapatórias, procurando superar esse desamparo primordial pela via do erotismo. A volúpia, ensina o libertino, é o único modo que a natureza oferece para atenuar o sofrimento humano.

FM Há um largo capítulo de teu livro dedicado especificamente à libertinagem em sua perspectiva filosófica. Que referências podemos encontrar, no Brasil, em termos de percepção, prática e desdobramento dessa linhagem voluptuosa?

ERM Há alguns grandes leitores de Sade no Brasil, mas estão dispersos. De modo geral, podemos encontrar um traço sadiano em grande parte dos autores que se vincularam, de uma forma ou outra, ao pensamento surrealista. Penso em Jamil Almansur Haddad, em Claudio Willer, em Contador Borges, em Jorge Mautner, no Zé Celso e no Teatro Oficina, só para citar alguns dos nomes mais significativos. Entre eles destaca-se a figura singular de Roberto Piva, que tem um poema genial intitulado “Pornosamba ao Marquês de Sade”.

FM Há também aquele poema intitulado “Homenagem ao Marquês de Sade” (Piazzas, 1964), em que ele conclui dizendo que Sade o dilacera e protege “contra o surdo século de quedas abstratas”, o mesmo século que Apollinaire previra ser dominado por Sade. Onde mais está presente Sade, confirmando-se tal previsão, em um raro como Roberto Piva e sua obra tecida em “constante vigília”, ou no acento equívoco de um Serge Bramly em seu romance O terror na alcova?

ERM São dois opostos. Enquanto o poema de Piva é iluminado, ampliando a visada do marquês, o romance de Bramly é definitivamente equivocado. Ao colocar lado a lado o prisioneiro Sade e alguns dos personagens de La Philosophie dans le boudoir, Bramly reduz o sistema sadiano às ocorrências biográficas do autor. Com isso, O terror na alcova acaba por confundir a condição de vítima com a de libertino; equívoco inadmissível considerando-se que é justamente a partir da contraposição entre essas duas figuras — tipos absolutos, irredutíveis um ao outro, como são Justine e Juliette — que Sade projeta sua ficção de um homem completamente livre.
Com esses pressupostos em mente, não é de estranhar que Bramly manifeste outro senso comum, este ainda mais grave, que insiste em considerar o marquês como precursor da suposta “liberdade sexual” contemporânea. Tudo se passa como se o liberalismo político tivesse enfim conquistado tal estágio de garantias individuais que, hoje, qualquer “indivíduo normal” seria capaz de realizar seus desejos sexuais sem o menor constrangimento. Tudo se passa como se a insaciável erótica de Sade pudesse ser substituída pelas prateleiras de uma sex shop, reduzindo toda fantasia à circulação das mercadorias.

FM Tradutora de Bataille que és, isto me leva a indagar sobre o excesso ou recusa à abstinência nos dois autores. Como estabelecer parâmetros entre o êxtase e a emoção sexual considerando o que defendiam ambos, Sade e Bataille? Em que exatamente se distinguem?

ERM Valendo-me de uma concepção do próprio Bataille, acredito que se trata aí de escritores cuja literatura se caracteriza por expressar uma “hipermoral”. Ou seja, trata-se de um pensamento que busca “descobrir na criação artística aquilo que a realidade recusa”. Ao realizar tal exploração fora das dimensões éticas ou morais, esses autores abrem mão de todo e qualquer escrúpulo da tradição humanista para discorrer sobre aquilo que nega os princípios desse mesmo humanismo. Para tanto, eles se impõem a tarefa de ouvir a voz dos algozes, considerando seus motivos, e até mesmo a sua falta de motivos, de forma a construir uma cumplicidade no conhecimento do mal. Nesse sentido, podemos advogar mais uma aproximação do que uma distinção entre Sade e Bataille.

FM Não havia acaso no Surrealismo um tipo de sublimação do amor, uma libertinagem poética cuja referência a Sade estava longe de integrá-lo ao viver?

ERM Com certeza. Há em boa parte dos autores surrealistas uma certa ideia de redenção pelo amor que não se encontra, jamais, em Sade. Acho que a leitura surrealista do “divino marquês” concentrava-se, sobretudo, nos domínios do desejo. O que atraía os membros do grupo em direção ao pensamento sadiano era justamente a onipotência do desejo, que os escritos do marquês não só cultivavam como também exaltavam nas dimensões mais imperiosas, radicais e violentas. Aos olhos dos surrealistas, essa exaltação se revelava ao mesmo tempo lúcida e irracional, reafirmando a relação entre erotismo e liberdade que estava no centro das convicções do grupo.

FM Referindo-se às aspirações do Surrealismo, disse certa vez Robert Desnos que estas haviam sido formuladas essencialmente por Sade, por ter sido ele primeiramente a entregar “a vida sexual integral como base para a vida sensível e inteligente”. No posfácio do 2º vol. da Poesia Completa de Roberto Piva, observas a insensatez de uma escrita “que insiste sem cessar nas próprias obsessões, reiterando o mote transgressivo para deixar a descoberto o princípio de subversão que une definitivamente o sexo à poesia”. Nos dois casos, até que ponto interessa distinguir perdas e ganhos de linguagem, ocasionados justamente pela obsessão de um projeto maior que extrapola os domínios da própria linguagem?

ERM Acredito que haja aí uma contradição produtiva que vale tanto para os escritos dos surrealistas franceses quanto para a poesia de Piva. Num dos artigos incluídos em La part du feu, Maurice Blanchot toca nesse ponto ao dizer que, apesar das suas furiosas invectivas, “o surrealismo aparece principalmente como uma estética e se mostra primeiramente ocupado com as palavras”.
Por trás dessa aparente inconsequência estaria a proposta de “liberar” as palavras que os surrealistas teriam realizado em duas direções. De um lado, na tentativa de aproximar a linguagem e a liberdade humana até o ponto de transformá-las na mesma coisa: “penetro na palavra, ela guarda minha marca e é minha realidade impressa; adere à minha não aderência”. De outro, no reconhecimento de que havia uma espontaneidade própria das palavras, de tal forma que elas poderiam se liberar por si mesmas, independentes das coisas que expressam, agindo por conta própria e recusando a simples transparência.
Ora, persistindo nessa ambiguidade, os surrealistas foram levados tanto a desprezar a escrita em função da vida quanto a afirmar sua importância no próprio ato de viver: “escrever é um meio de experiência autêntica, um esforço mais do que válido para dar ao homem a consciência do sentido de sua condição”.

FM Em um comentário ao tabelião Gaufridy, disse Sade: “são minhas desgraças, meu descrédito, minha posição que aumentam meus erros, e enquanto não for reabilitado, tudo de mal que acontecer nas redondezas será sempre atribuído à mesma pessoa: o marquês de S.”. Porém até que ponto Sade teria se beneficiado desse estigma, de tal maneira que sua reabilitação pudesse vir a ser um obstáculo na influência de sua obra?

ERM Não acredito que tal estigma tenha resultado em benefício. Antes, penso que ele serviu para transformar Sade em uma “marca”. Vale lembrar que não é nada pequeno o aparato pornográfico que leva seu nome, abrangendo revistas, filmes e, ainda, as edições do gênero que seus livros acabaram por inspirar. No perverso mundo contemporâneo, caracterizado por uma vertiginosa circulação de mercadorias, o marquês transformou-se até mesmo em marca de um champanhe francês, tornando-se objeto de incansáveis e descabidos apelos de marketing! Apesar disso, a obra sadiana sobrevive a seu estigma e, se isso acontece, é porque o pensamento de Sade permanece como um grande enigma.

FM Em um extraordinário estudo sobre Sade, Alexandrian destaca que “o ideal da heroína sadiana é a puta transcendente”. Já me dirás se estás de acordo, porém eu principalmente gostaria que comentasses algo sobre a composição de personagens na obra de Sade, inclusive atentando para a mescla de características que buscava junto ao próprio ambiente social de seu tempo. Penso aqui também no mesmo Alexandrian ao dizer que “a história fornece a Sade um quadro negro que este reveste com brilhantes ornamentos de estilo”.

ERM Concordo em gênero e número. Muitos intérpretes da obra sadiana, ofuscados pela imaginação delirante do marquês, deixam de atentar para o fato de que o romancista propõe-se também como historiador. Como esquecer a paixão de Sade pela história? Ora, não define ele como “historiadoras” as quatro prostitutas que relatam as paixões das 120 journées a partir de sua experiência nos bordéis parisienses?
É como se não pudéssemos aceitar que o “inconcebível” da literatura tivesse sido realmente concebido na história; em que medida isso ocorre, não sabemos; porém, as histórias dos libertinos setecentistas provam que não foi Sade quem introduziu a crueldade na libertinagem. Ele é o primeiro a alertar disso, insistentemente, recorrendo de forma exaustiva a exemplos históricos. A questão, certamente, não é descartar a prodigiosa imaginação de Sade; mas, abordar sua obra a partir da história pode trazer surpresas para os estudiosos que, muitas vezes, ignoram tal associação. Como ignorar, por exemplo, a relação entre a Sociedade dos Amigos do Crime e as inúmeras sociedades secretas libertinas que se formam na França a partir do século XVIII?

FM O epíteto “Divino Marquês” me recorda uma passagem do Ecce Homo, em que Nietzsche defende que “o divino não consistiria em chamar a si a punição mas os erros”. Para além da incitação à liberdade total, estaria Sade empenhado em descarnar a tragédia de uma sociedade cuja hipocrisia confundia virtude e vício? Neste sentido, seria o oposto de Restif de La Bretonne, considerando que este declarava venerar “a Virtude no Vício”?

ERM Aqui também temos um par de opostos. Nosso aristocrático e erudito marquês não vê nada que lhe interesse em Restif, marcando de forma bastante clara sua distância com o tipo de literatura produzida por este plebeu. Já em 1783, antes mesmo de escrever seu primeiro romance, encarcerado em Vincennes, Sade envia uma carta à marquesa encomendando-lhe alguns livros, e adverte: “Sobretudo não compreis nada de Restif, pelo nome de Deus! É um autor da Pont-Neuf e da Biblioteca azul, de quem seria estranho que imaginásseis enviar-me qualquer coisa”.
A hostilidade, porém, não é unilateral. E, se as palavras de Sade podem sugerir apenas uma avaliação estritamente literária, as críticas de Restif ao autor de Justine mostram que estão mesmo em jogo diferentes concepções de libertinagem: “Ninguém ficou mais indignado que eu com as obras do infame Sade”, diz ele no prefácio a l’Anti-Justine.

FM Disse Sade: “O homem nasce para gozar e só através da libertinagem conhece os mais doces prazeres da vida: só os tolos se contêm”. Observando a maneira como Octavio Paz foi paulatinamente se distanciando de Sade, não haveria aí uma maneira de preservar-se a si mesmo, distanciando poeta e pensador, escapando de toda sorte de exceção ou capricho?

ERM É possível que sim. Passado um quarto de século desde a publicação de seu primeiro ensaio sobre o marquês, Paz realmente distancia-se de suas proposições iniciais, voltando um olhar bem menos benevolente ao que ele chama de “incômodo interlocutor”. Sua visada concentra-se então em outro princípio do sistema libertino, precisamente aquele que traduz “um mais além erótico”: a negação universal. Ou, numa só palavra: o Mal. Ora, ao investigar a exigência de negação que orienta a ficção sadiana, o escritor mexicano realmente assume mais sua persona de pensador do que um poeta. Mas, cumpre dizer, ele nunca perde o vigor da palavra.

FM Esquecemos algo?

ERM Tomara que sim! Dessa forma, deixamos uma nova conversa no horizonte.

[2006]

[Entrevista com Eliane Robert de Moraes (Brasil, 1951), publicada em Invenção do Brasil. São Paulo: Editora Descaminhos, 2013. http://www.amazon.com/Inven%C3%A7%C3%A3o-Brasil-entrevistas-Portuguese-Edition-ebook/dp/B00FTBMR24]

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